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Carta de Adeus

Por Ana Flora 

Meu Amor,

Venho me despedir.

Desejo que você se reenconte, se reconheça e que resgate sua identidade e individualidade, tão comprometidas ao longo desses cinco anos. Comunhão não é fusão. A segunda nos torna infelizes, escravos, pois nos aprisiona, e isso não é amor, é egoísmo, possessividade, vigilância, controle. Que você possa voltar a se saber, reconhecer sua potencialidade e suas limitações, que volte a se respeitar. E que consiga, principalmente, vislumbrar outros sonhos, menos doloridos que os que vivenciou, em seu casamento, nos últimos tempos. Desejo que possa se libertar dessa relação que te faz infeliz e viver um amor suave, uma relação equilibrada, com muitos laços - e sem nós.

Compreendo e respeito suas limitações momentâneas, a impotência diante das circunstâncias todas que te rodeiam, mas não aceito sua fraqueza, essa covardia que não te deixa andar. Creio que tudo seja questão de se querer muito algo ou alguém. Ou de não se querer. Talvez você não me quisesse o suficiente para encarar os riscos, as dificuldades do recomeço, e tentar ser feliz de novo. Ou, talvez, haja algo mais que eu desconheça. Não sei. Mas sei que o novo assusta algumas pessoas, e a felicidade (veja você, a felicidade!!!) assusta também. Tem gente que está tão acostumada a ser infeliz, que, quando percebe a felicidade bater à sua porta, desconfia. E, então, deixa que ela se vá.

Mari, o triunfo pertence a quem se atreve! Quem não ousa não pode ter o prazer satisfeito depois da dor. Não pode olhar pra trás e dizer "poxa, valeu a pena, eu consegui!". Você me disse, muitas vezes, que isso tudo ia passar. Dizia-me "calma, tudo o que é difícil é melhor depois, você vai ver, tudo isso vai passar, confia em mim, você vai ser minha mulher!". E eu confiei, te apoiei, sofri com você suas angústias, vivi intensamente cada momento nosso. Passei seis meses à espera de uma atitude sua, um gesto de coragem e ousadia que te libertasse. Mas você fraquejou, foi leviana e inconseqüente, imatura e insensível.

Saiba que eu fui até onde pude ir, e não posso mais desrespeitar meus limites, pois eu me amo e me respeito. Não posso mais aceitar que você me ofereça apenas sobras, que continue fingindo pra ela e pra família dela, tentando convencer a todos de que são um casal normal e feliz. Mentiras. Não quero mais essa melancolia, esse desencontro, tantas mentiras, seu jogo, a clandestinidade e o vazio a que você nos condenou. Não quero você me ligando escondida - e me escondendo - como se fôssemos marginais. A vida é breve demais, minha querida. Muito breve...

Nunca vivi um amor conturbado, tive relações muito leves e serenas. Amei e fui muito amada, tivemos problemas, mas resolvemos juntas; já desamei e fui desamada, coisas da vida; sofri e fiz sofrer, ainda que involuntariamente, mas nunca passei por algo tão conflitante.  A dor que você tem me causado é pesada demais pra mim. Amor deve ser leve, divertido, sereno, deve nos deixar melhor do que antes de sua chegada. Problemas fazem parte da vida, mas, quando se tem paz de espírito, equilíbrio e bom senso, tudo é solucionável. Você se acostumou a viver sob pressão, cobranças, mentiras e desconfianças, e isso tudo é muito estranho pra mim, não faz parte da minha forma de ver e viver o amor. Não sou dona da verdade, mas tenho uma vivência densa; tenho 42 anos e sei muito bem o que quero e o que não quero pra minha vida. E não quero essa dor, tanta angústia, descaso e falta de atitude. Como te falei, quero presença, não presentes. Quero companheirismo, carinho, afeto, guerra de travesseiros, dormir de conchinha, café da manhã na cama com a pessoa amada.

Desejo-te o melhor. De coração, que você seja feliz e possa resolver seus problemas. Sempre desejei estar ao seu lado e te ajudar, mas você não me permitiu, seu medo não nos permitiu. Já não sei mais o que era verdade ou mentira das histórias todas que você me contou, das promessas que fez, mas isso já não importa. Eu me apaixonei e fui fiel ao que sentia. Eu me expus, corri os riscos, e sei que não foi em vão: o amor justifica e explica todo desengano.

Tomara, um dia, possa te reencontrar e você esteja em paz, leve, feliz. Eu te amei, exatamente, como você é. E é esse amor que levarei comigo pelo tempo que durar. Cuide-se bem, não se violente. Seja sincera consigo mesma, fiel aos seus sentimentos. Ser feliz é bem possível, sabia? Tudo é conseqüência de nossas ações, e você fez sua escolha, logo, cabe a você experimentar o doce e o amargo do que isso significa. Toda escolha implica uma renúncia, lembra-se?

Eu não guardarei rancor, pois sei que o tempo é senhor da razão e, aos poucos, toda a mágoa será dissipada. Mas fico triste, muito triste. Sempre digo que decepção é pior que uma porrada no estômago, fere mais, machuca mais, causa uma dor quase que insuportável.

Acreditei, de fato, em nós, sonhei um futuro com você - e sei que não sonhei sozinha. Fico com minha dor até que a ferida cicatrize. Cada qual com a parte que lhe cabe, não é mesmo?

"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida". E, portanto, continuarei cuidando bem de mim, do meu jardim, para que floresça sempre e mais.

"Sei que o destino do amor é, sempre, a despedida".

Adeus,

Sua

Todas as cartas de amor são ridículas
Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser ridículas. Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor
É que são ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor ridículas. A verdade é que hoje
As minhas memórias dessas cartas de amor
É que são ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente ridículas.)



Semeado por Ana Flora às 16h28
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Quando o amor vacila

Autoria desconhecida

Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes,
pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
e que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila.



Semeado por Ana Flora às 16h24
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